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8 de jan de 2008

Quem quer a verdade?

Um destemido caçador procurava o rastro de um leão. Encontrando um lenhador, perguntou:

- Se o senhor visse o rastro da fera saberia dizer onde ela mora?

- Vou te mostrar o animal – respondeu, decidido, o lenhador.

Pálido de medo e tremendo os ossos do corpo, o caçador exclamou:

- Não… não… eu não estou procurando o leão, estou procurando o seu rastro.*

Nem todos querem a verdade. Diante dela não são poucos os audaciosos nas idéias que se transformam em medrosos nas ações.

Entramos em um novo ano.

Ao lado dos tradicionais desejos mútuos de prosperidade e paz, desta vez parte da humanidade inovou. Condicionou paz e prosperidade à continuidade do mundo. Preocupações com a finitude do planeta.

Chama a atenção o número crescente dos que acreditam estarmos diante de uma encruzilhada civilizatória. E isso é muito bom. Cada vez mais pessoas crêem que, ou mudamos nosso comportamento ou, maus inquilinos que somos, a natureza se incumbirá de nos despejar. E aí paz e prosperidade vão, literalmente, para o espaço.

Entretanto, é preciso saber da verdade o todo.

Quanto à paz, é necessário saber que a verdadeira paz é quase nada comparada à guerra que se avizinha entre aqueles que já enxergaram o tamanho do problema, e aqueles que ainda teimam manter os privilégios conquistados a poder do solapamento da natureza e suas conseqüências.

As guerras atuais já são disputas por recursos naturais definhantes. As guerras futuras serão guerras contra a escassez. E o serão cada vez mais.

Se queres paz, prepara-te para a guerra! Nunca isso foi tão verdadeiro.

Quanto à verdadeira prosperidade, ela só é possível caso a humanidade passe a trilhar um caminho que observe as leis naturais. Um caminho que não objetive a invenção de uma outra natureza; a invenção de uma natureza humana, desenhada sob as leis de suas tecnologias, tantas vezes em desacordo com as leis naturais.

Mas esta mudança de sentido colocará à margem da estrada os que insistem em um progresso que satisfaça os desejos humanos: o fim das doenças, a abolição da velhice, a erradicação da miséria, a perpetuação da vida!

Um tal progresso é mais do que qualquer religião já prometeu.

Por isso, os que veneram a tecnologia vivem de joelhos à espera de seus milagres. Por isso, muitos colocam-se contra a verdadeira prosperidade.

Não há tecnologia que construa um mundo que satisfaça estas fantasias.

Portanto, seja para a paz, seja para a prosperidade, seja para a continuidade do mundo, os três desejos mais comuns para o ano que se inicia, é necessário buscar a verdade toda. Pois não se trata de convencer aqueles que ainda não entenderam que, em uma natureza equilibrada é onde está a continuidade da espécie. Trata-se de compreender que novas idéias acerca da paz, da prosperidade e da continuidade do mundo, por mais simples e naturais, são hoje as mais subversivas já concebidas. Por um simples motivo: elas afrontam os interesses de país ricos. E quem é rico é forte. E a riqueza destes países (leia-se mercados) depende cada vez mais do quanto eles mantém firmes as rédeas sobre os recursos naturais.

A sociedade humana está concebida para ser como é. Mudar estas concepções exige um desconforto.

Quer mesmo saber onde o leão mora?

* Uma das belas fábulas de Esopo, sábio grego que viveu no séc. VI a.C.

(*) Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Paraná

fonte:A Tribuna
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